Ciência míope

Contraponto a entrevista da cientista Lisa Mosconi para a BBC e reproduzida pela BBC Brasil em 23 de abril de 2023

Miopia é uma dificuldade visual caracterizada pela perda da visão de longe. De perto, a clareza visual continua preservada. Logo, chamo de ciência míope a ciência que só enxerga o que está perto.

É verdade que certos temas científicos são muito complexos e que é preciso estar imerso nesses temas para conseguir acompanhar a evolução do conhecimento em uma determinada área. E isso faz com que muitos cientistas sejam profundos conhecedores de um tema ao mesmo tempo que dominam conhecimento apenas superficial sobre temas que não estão no seu campo de atuação. Mas mesmo não sendo grandes conhecedores de outros campos, cientistas podem manter viva a perspectiva de que cada campo detém apenas parte do conhecimento e interpretar com cautela os resultados obtidos nos seus estudos científicos.

A miopia ocorre quando cientistas imersos em um tema não só desconhecem outras explicações para os fenômenos que estudam, como estão cegos quanto a qualquer alternativa que não a sua própria perspectiva. Esse é o caso da pesquisadora Lisa Mosconi, uma profunda estudiosa do cérebro que parece ignorar completamente que somos seres sociais submetidos aos contextos culturais e econômicos.

Na sua vida acadêmica, Mosconi se voltou para o estudo do que ela chama de o cérebro das mulheres. Para ela, a diferença entre os cérebros de homens e mulheres (de acordo com o sexo biologicamente determinado) é uma valiosa fonte de informações que foi negligenciada por muitos anos nas neurociências.  Para superar o que ela entende como negligência, ela se debruçou sobre o tema e conduziu diversos estudos comparando a estrutura e o funcionamento cerebral de homens e mulheres em várias fases da vida.

Com o resultado desses estudos, Mosconi defende que o cérebro dos homens e das mulheres é sim diferente. E que isso justifica um tratamento médico diferenciado para as mulheres, ou melhor, para o cérebro das mulheres cis.

O grande desafio quando procuramos encontrar diferenças entre cérebros é que todos os cérebros são diferentes, não existem dois cérebros iguais. Isso ocorre pois o cérebro é moldado pelo ambiente e acaba sendo muito influenciado pelas nossas vivências e pelas intempéries às quais estamos expostos. Logo, é muito difícil dizer que os cérebros de uma população sejam diferentes dos cérebros de outra população e assumir ainda que essa diferença é resultante exclusivamente de determinações biológicas.

Para Mosconi tudo é culpa da genética ou dos hormônios. A forma como homens e mulheres são tratados ao longo da vida é, para ela, um detalhe irrelevante.

É sem dúvida verdade que homens e mulheres são submetidos ao longo da vida aos diferentes estímulos hormonais e que esses podem ter efeitos específicos que justifiquem algumas características de nosso comportamento. Porém, não é possível isolar esses efeitos do caldo de cultura no qual estamos imersos. Mulheres podem, por exemplo, ter menos restrições em reconhecer emoções como tristeza e preocupação, enquanto homens podem se sentir mais autorizados a manifestar suas emoções como irritação e intolerância e a se automedicar com substâncias entorpecentes. Essas diferenças podem até ter alguma influência genética, mas são certamente condizentes com preceitos sociais. Como resultado de formas diferentes de reconhecer e manifestar as emoções, mulheres podem ser com mais frequência diagnosticadas com depressão do que homens por tenderem a se sentir menos ameaçadas ao admitir que estão tristes. O que significa que as mulheres não necessariamente têm maior propensão cerebral à tristeza e por isso são mais frequentemente diagnosticadas com depressão[1].

Do mesmo modo, padrões culturais podem favorecer com que os homens desenvolvam quadros de consumo excessivo de álcool quando angustiados. A imagem de um homem sentado no bar bebendo com os amigos enquanto as mulheres estão em casa cuidando das crianças, ou de um homem tomando sua dose de whisky no final do dia são muito mais frequentes do que de mulheres nas mesmas situações[2].

Para dizer que mulheres ficam mais deprimidas porque seus cérebros são mais propensos à depressão é preciso acreditar que nossas relações com sentimentos como tristeza, desanimo, falta de interesse e dificuldade de sentir prazer sejam exatamente as mesmas para todos nós independente do que aprendemos sobre o significado de manifestar emoções em público desde a infância. Ou que o quanto consumimos de álcool não tem nenhuma relação com o que vemos a nossa volta ou com as propagandas das grandes marcas de cerveja.

Além de reducionista, a perspectiva de Moscovi é perigosa.

Ao alimentar uma falsa ideia de determinação exclusivamente biológica, essa perspectiva acaba por estimular ideias sexistas que passamos séculos tentando derrubar. Ideias como a fantasia de que as mulheres seriam menos propensas a gostar de matemática, ou a assumir postos de comando porque seus cérebros evoluíram para dar conta das tarefas domésticas. Então, para que não retrocedamos em anos de luta para desmistificar bobagens como essas, é preciso deixar claro: cérebros de homens e mulheres não são marcadamente diferentes entre si. Pequenas variações podem sim ser encontradas, mas elas não são extraordinariamente mais intensas do que aquelas que esperamos quando comparamos quaisquer dois cérebros entre si. Além disso, é possível que essas pequenas variações sejam consequência do modo como homens e mulheres são tratados ao longo da vida, e não necessariamente são resultantes de genes ou receptores hormonais. Mais importante que todas essas observações e para sanar qualquer dúvida: mesmo com pequenas variações cerebrais, decorrentes ou não de determinantes biológicos, não existe absolutamente nenhuma atividade cognitiva que seja melhor executada por homens ou mulheres como consequência do seu sexo biológico. Do mesmo modo como não existem cérebros do gênero masculino e cérebros do gênero feminino, não existem cérebros determinados pelo nosso sexo biológico. O que existem são cérebros, todos eles muito peculiares.

Resultado de análise de ressonância funcional magnética

[1] Narmandakh A, Roest AM, de Jonge P, Oldehinkel AJ. Psychosocial and biological risk factors of anxiety disorders in adolescents: a TRAILS report. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2021 Dec;30(12):1969-1982. doi: 10.1007/s00787-020-01669-3. Epub 2020 Oct 28. PMID: 33113027; PMCID: PMC8563629.

Zahn-Waxler C, Klimes-Dougan B, Slattery MJ. Internalizing problems of childhood and adolescence: prospects, pitfalls, and progress in understanding the development of anxiety and depression. Dev Psychopathol. 2000 Summer;12(3):443-66. PMID: 11014747.

Patel V, Kirkwood BR, Pednekar S, Pereira B, Barros P, Fernandes J, Datta J, Pai R, Weiss H, Mabey D. Gender disadvantage and reproductive health risk factors for common mental disorders in women: a community survey in India. Arch Gen Psychiatry. 2006 Apr;63(4):404-13. doi: 10.1001/archpsyc.63.4.404. PMID: 16585469.

[2] Becker JB, McClellan M, Reed BG. Sociocultural context for sex differences in addiction. Addict Biol. 2016 Sep;21(5):1052-9. doi: 10.1111/adb.12383. Epub 2016 Mar 3. PMID: 26935336; PMCID: PMC5555215.

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